Todo Piloto sabe
que, mesmo voando no
nivel anotado em seu PLN, sua aeronave efetua uma série de
modificações na altitude, em função das
variações da pressão atmosférica. E sabe
também que os controles em terra recebem a
indicação
automática da altitude de cada aeronave, graças ao
transponder, sendo o seu posicionamento
acompanhado pelo sistema radar.
A
série de modificações para cima e para baixo que
sofrem as aeronaves na
sua
altitude durante um vôo é a razão de todos os
pilotos, a partir da altitude de transição trocarem de
QNH para QNE e voarem em pressão padrão. É como se
todos eles estivessem então, subindo e descendo
em ondas, ao mesmo tempo.
Essa é exatamente a mesma
sensação que se vive em
relação ao atual estágio da Aviação
no Mundo.
No entanto, por estarmos próximos da nossa própria
realidade, alguns entendem que esses
altos e baixos são exclusivos
da Aviação Brasileira.
As Razões preliminares para
que um
grupo
representativo de profissionais de
diferentes setores da Sociedade Brasileira pretendesse realizar, logo
ao
início de 2008, este
SEMINÁRIO NACIONAL DE AVIAÇÃO CIVIL, estão
aqui concentradas em textos abertos às críticas e
estudos, em busca de sugestões e alternativas que posssam ser
úteis ao debate, mas principalmente às
soluções.
Essa proposta para o debate em Seminário pode ser
também compreendida pela percepção que se tem de
que existe uma atitude ainda passiva
e
silenciosa da maior parte da população do País,
talvez por julgar que o tema seja distante de sua própria
realidade, ou ainda porque muitas pessoas não tenham o
conhecimento técnico para se procunciar, mas certamente porque
quase todas simplesmente adotam uma política de
não
envolvimento nas grandes questões nacionais.
Sem dúvida estivemos,
recentemente, diante de crises repetitivas na Aviação
Brasileira, e isso afetou não apenas a imagem
do
País, em seu próprio território, junto à
população em geral, mas trouxe reflexos negativos ao
Turismo e ao
Comércio Exterior, tornando-se uma conta que se terá que
pagar mais adiante.
As Razões do
Seminário estão centradas, portanto,
num
esforço coletivo e amplo, necessário para provocar uma
reversão - e a não repetição, das causas
dos
impactos daquele terrível incêndio e daquela tremenda
colisão, que
consumiram em poucos segundos tantas vidas, e que afetaram o
País, não apenas na tragédia dos
próprios acidentes,
infelicitando a Família dos passageiros e tripulantes dos
aviões da Gol e da TAM, mas fragilizando toda a Família
Brasileira.
O Movimento Asas da Paz tem
debatido, em sua filosofia de trabalho,
como uma empresa pode interpretar suas próprias
obrigações de continuar voando, após um acidente
de trágicas proporções.
Sabe-se, por recentes estudos, que
os acidentes aéreos
brasileiros nunca revelaram ao mundo, como agora, que os
problemas da Aviação Brasileira significassem qualquer
sinal de
incompetência para administrar serviços aéreos ou
mesmo suas crises. Ao contrário,
nossas autoridades zelaram durante todos esses anos para imprimir as
características da segurança e do controle, para que
todos os
envolvidos pudessem voar com tranquilidade.
Trazer ao Seminário, como
Razões, a discussão dos
Acidentes Aéreos, não é buscar revolver no passado
as cinzas que enegreceram nossa visão de uma
Aviação de Primeiro Mundo, como ela nos era apresentada,
mas sim buscar explicações técnicas que ainda
não vieram elucidar, de forma definitiva, acontecimentos em
seqüência, que desde uma colisão de aeronaves, em
pleno vôo, foram rompendo todas as barreiras da incredulidade
sobre a gestão governamental da chamada Crise Aérea.
A Nação brasileira se
manifestou, através dos
diferentes meios, pasma ou perplexa, triste ou rancorosa, mas
não agiu além das palavras, já que o
cenário político foi palco apenas para os que, sem
nenhuma razão técnica, se esmeraram em encontrar
culpados, retornando a processos que o Brasil deixara de usar desde
1965 nas investigações das causas e culpas de acidentes
aéreos.
Pilotos americanos foram detidos,
investigados e liberados, para
posteriormente serem culpabilizados por um choque frontal de uma
aeronave leve com uma outra aeronave de peso bem superior, numa
resultante de
velocidade de 1800km/h, sem que essa aeronave leve tivesse sido
destruída e sem que se tenha discutido quais são os
resultados da análise da raíz da
asa do Legacy que provocou o rompimento da asa do Boeing da Gol.
Piloto e co-piloto do avião da TAM operavam uma aeronave sob
condições, em pista sob condições, e seu
procedimento surge como anômalo porque ao final do impacto a
posição dos controles das turbinas da aeronave estava
indicando uma operação duvidosa, lhes sendo por isso
atribuída uma culpa isolada, sem maiores detalhes sobre todos os
outros fatores que contribuiram para o acidente.
Existem sim, Razões para que
no Seminário, ao longo das reuniões do ano, esses pontos
sejam debatidos e que os especialistas possam ser convocados para a
elucidação, antes que a poeira da História da
Aviação Brasileira seja a única a ser depositada
sobre a verdade dos fatos. A Justiça brasileira foi capaz de
culpabilizar os Pilotos americanos e os Controladores, gerando, em
conseqüência, por vários meses, uma
situação que passou a ser chamada de Cáos
Aéreo.
A ausência dos Pilotos
americanos, considerados culpados, liberados
para voltar ao seu País, e a contínua busca por culpados,
mas não por explicações, fez
com que o Congresso Nacional se movimentasse em busca dessas autorias,
e que toda a Imprensa leiga, atenta aos detalhes levantados pelos
leigos, políticos, procuradores, juízes e outras
autoridades, buscassem acentuar a culpa dos controladores.
Só não se esperava a repetição de
tragédia em tão curto espaço de tempo o que,
além de mortificar ainda mais a população,
produziu e ainda produz um efeito que só interessa aos que se
lançaram, uns contra os outros, em disputas pessoais, sem
sentido.
Os Controladores,
a Atribuição de Culpas e Outras Questões
|
Mais uma
das importantes
Razões de debater, no Seminário
Nacional, em cada uma das reuniões ao longo do ano, o que esses
profissionais têm a dizer sobre as
propostas que políticos fizeram antes do primeiro acidente,
exatamente cinco dias antes, e que talvez pudesse ter provocado uma
eventual
desatenção,
segundo a mesma teoria da culpa.
A imprensa publicou que os Controladores Militares, aproveitando a
visibilidade
provocada pelo "julgamento" do acidente da Gol, adotando uma
política quase suicida, numa carreira militar, se amotinaram e
produziram o martírio de milhões de pessoas nos
aeroportos brasileiros, já traumatizadas pelos simbolos ainda
nítidos das discussões sobre o acidente aéreo da
Gol e a
possível causa por falha no Controle do Tráfego
Aéreo.
Quais as verdadeiras Razões para que esses profissionais,
técnicos e de carreira militar, fizessem um movimento
reinvidicatório, que certamente redundaria no chamado
Cáos
Aéreo, induzido aparentemente com o propósito declarado
de chamar a
atenção para os dramas da categoria.
Segundo a Comissão Parlamentar de Inquérito que buscou
apurar os fatos, o resultado das
gravações da cabine do Legacy aponta que os pilotos
americanos demonstram sua negligência e responsabilidade na
condução da aeronave, recém
adquirida pela
empresa. Se por um lado, surge o fato de que muito pouco tinham de
experiência ou
proficiência para uso e manipulação correta de sua
aparelhagem, por outro questiona-se sobre o conteúdo silencioso
da caixa-preta do
Boeing. Logo, o confronto
desses registros não permite responder, em definitivo, outras
questões
que ainda possam surgir para explicar a colisão.
Já as Razões para debater o acidente da TAM parecem
consistentes. Ele envolveu a pista, o piloto, o
avião, todos os engenheiros que nas vésperas liberaram a
pista, mesmo sem o grooving concluído, até mesmo o
Instituto de
Pesquisas
Tecnológicas (IPT) que teria emitido laudo a respeito, a
Diretora da ANAC que falseou com a
documentação perante um Juízo, por sua vez
envolvido no questionamento operacional para liberar ou não a
pista de Congonhas, e vários outros pontos que formam um
conjunto bem consistente, mas não completo.
Por isso o tema deve ser
discutido de forma ampla e aberta, para que se encontrem
alternativas adequadas ao equilíbrio permanente de uma
situação
até hoje ainda mantida insustentável, do ponto de vista
técnico
operacional.
Representantes da Gol
e da TAM devem ter muitas Razões para comparecer ao
Seminário e apresentarem, com sua competência, como se
utilizam da
estratégia mercadológica de crescer, quando foram
atingidos por tais
tragédias.
A
falta de conhecimento e
qualificação da direção da ANAC à
época dos acidentes, quando
apenas um dos Diretores era Militar de carreira e oriundo dos Quadros
do DAC, foi citada por alguns editorialistas como a causa dos
vários erros cometidos em tentativas para solucionar os
problemas. Coube ao Governo Federal providenciar as trocas de quadros,
quase que em paralelo aos fatos que surgiam.
Segundo aqueles editorialistas os problemas teriam
começado com as decisões políticas e judiciais,
face à
crise da Varig.
Essa já é mais
uma das Razões para que se debata
a atual forma da indicação da Diretoria da Agência.
Segundo outros profissionais, no entanto, os problemas da
Aviação
Brasileira
têm outras motivações evidentes, sendo pelo menos
as más decisões em escolhas, como um todo, as principais
Razões. Ou
seja: falharam as autoridades na escolha das pessoas, na
localização e construção dos
aeroportos e também na permissão das
ocupações dos
espaços junto aos aeroportos.
Essa,
portanto, mais algumas das Razões que nos levaram a realizar o
Seminário e debater esses temas ao longo das reuniões
mensais do ano de 2008.
Estudos e
relatórios de muitos especialistas já apontavam, bem
antes
de 2007, para a
necessidade da reestruturação do modelo
aeroportuário no Brasil
.
Por que então, ao longo desse tempo, faltou a sinergia entre os
poderes federal,
estadual e municipal, ao ponto de se criar essa ocupação
desordenada do
entorno dos aeroportos brasileiros? Como agora podemos encontrar uma ou
mais
soluções, de curto, médio e de longo prazo?
Há
problemas de falta de recursos ou de má gestão
de
orçamento
da União, no que tange à Aviação Civil
Brasileira?
Ao longo dos
últimos 40 anos, qual foi a evolução dos
investimentos e qual a demanda não atendida?
Como as tarifas aéreas
nacionais, que suportam tais investimentos, são elaboradas? E
como são aplicadas, para
que não se tornem a razão dos problemas?
Somam-se ao conjunto dessas questões, a citada falta de
investimento em recursos
humanos e tecnológicos, os modelos usados no sistema de
formação e seleção, tanto de pilotos quanto
de técnicos para
a operação e
controle de tráfego aéreo, além de outras
decisões governamentais e empresariais relativas aos processos
remuneratórios dessas
categorias.
É claro que também essas questões devem ser
debatidas como Razões
que
nos levam ao Seminário Nacional de Aviação Civil.
Como
sabem os especialistas do setor aéreo, os estudos de
volume de tráfego, bem como suas estatísticas, mantinham
num passado recente a
correlação entre a demanda e a procura, em níveis
adequados ao crescimento programado e controlado desse tráfego
aéreo.
Depois, de acordo com alguns
analistas, permitiu-se que as
companhias
aéreas preparassem e aprovassem a montagem de suas malhas, junto
ao órgão
controlador, ainda o então DAC, caracterizando
apenas seus
interesses e não o volume estimado, nem a demanda real,
já que essa seria construída com base em
modificações de preços, numa corrida para baixo.
Da mesma forma, caso as tentativas fracassassem, nada era imposto como
contrapartida, política que anteriormente havia consumido muitos
recursos das empresas, e portanto as
aéreas que não obtivessem movimento apenas se retiravam
dos aeroportos rarefeitos.
Desse modo,
centenas de cidades médias e pequenas foram sendo gradualmente
abandonadas.
Por origem, ou por
economia, as
aéreas acabaram seguindo
orientação mundial da época e optaram pelo sistema
de hubs.
Com isso, independente do
fluxo, da demanda ou de qualquer outro
critério, as companhias, em luta contra seus custos
operacionais, puderam
concentrar em poucos aeroportos toda a distribuição de
cargas e passageiros, o que lhes facilitava o gerenciamento
operacional.
Obtiveram, com isso, a
possibilidade de fazer cair os preços, reduzindo seus custos e
ampliando a margem de lucro.
Mas a
concentração dos vôos, nesses poucos aeroportos,
tornou o Sistema Aéreo Brasileiro mais frágil, do ponto
de vista das conseqüências, como se viu no processo da
formação da Crise Aérea.
Sabe-se hoje que basta
fechar um
desses aeroportos concentradores, por qualquer circunstância,
para que se tenha comprometido todo o
sistema.
E até uma falha localizada vira sistêmica, como ocorreu
com os equipamentos da Embratel, ou com os geradores em qualquer das
unidades de controle aéreo, como ocorreu na Amazônia,
comprometendo todas as
operações no Brasil, em cascata, repercutindo até
no
exterior.
Portanto, as Razões
operacionais
devem ser debatidas no Seminário, tanto quanto aquelas que
envolvem a relação das empresas com
a ANAC e com a INFRAERO. E todas as outras relações
aparentes e não aparentes, sempre que envolvam a
composição
ou redução dos vôos, ou que tragam, por
conseqüência,
o mau atendimento dos usuários.