O grupo de
13
controladores de São José dos Campos e Brasília
que monitoraram o jato Legacy prestou seu depoimento à
Polícia Federal.
Contratados pela ABCTA (Associação Brasileira dos
Controladores de Tráfego Aéreo), os advogados Normando
Cavalcanti e Fábio Tomás de Souza disseram que as
informações prestadas à
Polícia Federal dão conta de que não teria
ocorrido nenhum erro do controle aéreo.
Segundo eles, a
autorização de nível 37 mil
pés dada pelo controle de São José dos Campos,
ponto de partida do Legacy, era válida só para o trecho
até Brasília, e não até o destino final,
Manaus.
O grupo dos controladores apontou três fatores que levaram
ao acidente:
1.
A chamada
"zona cega" onde não haveria cobertura integral de rádio
e de radar
2. Dificuldades
com a tela de radar, que pode induzir a erros
3. O
próprio jato, que voava fora do nível de vôo
previsto no PLN,
e que estava com o transponder inoperante.
A Aeronáutica negou a "zona
cega", mas o então Comandante da
Força, Brigadeiro Luiz Carlos Bueno, admitiu em depoimento que
os
controladores podem ter sido induzidos ao erro.
| Controlador do Legacy atuava sem
supervisão |
O
princípio básico a ser observado nas
comunicações dos serviços de tráfego
aéreo é: "fazer-se entender, sem possibilidade de
engano, utilizando o mínimo de palavras."
A
fraseologia padronizada é parte do treinamento básico
do controlador e sua permanência no posto exerce sobre cada
profissional um aperfeiçoamento tão grande quanto a sua
capacidade individual de lidar com situações novas. Para
isso ele sabe quando deve usar uma linguagem clara e concisa.
A cada
dia a emissão, enunciação,
composição e recebimento das mensagens, ainda que
efetuadas em estrita observãncia das regras, permite aos
comandantes das aeronaves que voam diariamente em cada setor do Brasil,
reconhecer e ser reconhecido pelos controladores.
O
contato com a aeronave, nesse caso, é uma rotina que
não exige supervisão.
O papel do supervisor, um controlador de
tráfego mais
experiente, destacado para acompanhar o trabalho dos controladores que
monitoram
o console, pode se dividir em dois ou mais consoles, dependendo do
número de aeronaves controladas.
Seu papel principal é
assegurar que os controladores estejam
atentos. Caso surjam problemas de ordem técnica ou de
vetoração pode interferir.
Ao levantar as
condições de
trabalho na
ACC Brasilia, a imprensa noticiou que a
equipe de controladores de tráfego, responsável por
monitorar o jato Legacy, estava atuando sem supervisão na parte
da tarde, período em que ocorreu a colisão com o
vôo 1907 da
Gol,
naquele dia 29 de setembro de 2006.
Segundo os jornalistas que apuraram
esse fato, a falta do supervisor
em suas funções básicas aconteceu porque ele teria
ido
cobrir o posto da chefia
geral da sala de controle, lugar privativo de um
oficial da Aeronáutica que se ausentou.
1.
Essa é uma função meramente
administrativa ou envolve um controle master que permite monitorar
dessa sala de controle?
2. Nesse último caso, a
supervisão geral sobre todo o
trabalho da ACC exclui uma supervisão direta sobre o controlador
do Legacy?
3. Se não exclui, quais as
relações técnicas
para que as indicações ou falhas cheguem até o
posto da chefia geral da sala de controle?
Após cruzar Brasilia,
aproando a Manaus, o Legacy percorreu
cerca de 987 km, até o ponto de colisão próximo a
Peixoto de Azevedo.
Com a proa identificada, o tempo de
vôo até o ponto da colisão (Lat 10º 29' S /
Long 53º 15' W) foi de aproximadamente 60 minutos.
4. Durante esse tempo,
as comunicações entre as aeronaves que voavam na
área e o ACC permaneceram ativas?
5. O controlador permaneceu no
controle dessas aeronaves?
6. Houve alguma
solicitação adicional que tenha exigido do controlador
uma atenção maior do que a que ele
efetivamente distribuiria para as demais aeronaves?
7. Ou seja, sua
atenção foi solicitada por algum fato excepcional no
console, capaz de
retirar sua atenção do Legacy?
8. Essa eventual
desatenção teria sido a causa da colisão?
9. A ausência do supervisor,
por qualquer período, pode
ter
contribuído para que os dois
controladores não
tivessem percebido que o Jato Legacy permanecia em rota
de colisão com o Boeing, depois de cruzar Brasília?
10. Se o jato
não baixou de 37 mil pés para 36 mil pés no
trecho Brasilia/Manaus, como deveria estar previsto no PLN do Legacy,
quando isso foi percebido?.
Os profissionais do Controle de
Trafego Aéreo são qualificados por cursos teóricos
e por aulas práticas. Depois fazem estágios
supervisionado.
11. Qual a experiência do
profissional da Sala AIS inicialmente responsável pelo PLN do
Legacy, em São José dos Campos?
12. Qual a experiência do
profissional da TWR São José que autorizou e monitorou a
partida do Legacy?
13. Por que o controlador do
CINDACTA 1 não quis
detalhar
sua experiência profissional e disse estar mais aliviado depois de
prestar
seu depoimento na PF?
14. Ele confirmou que estava no
console
às 16h02?
15. Foi esse o momento em que o
radar do console deixou de
receber dados do transponder do Legacy?
16. Até esse momento esses
dados indicavam a altitude real?
17. O revezamento aconteceu entre
16h15 e 16h30?
18. Foi
às 16h26 que o controlador substituto fez a primeira de sete
tentativas de contato com o Legacy?
19. Qual a distância já
percorrida pelo Legacy em direção ao ponto do impacto?
20. Qual o tempo decorrido entre as
sete tentativas.
| Comissão Parlamentar de
Inquérito (CPI) do
Apagão Aéreo |
Brasília
- O relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do
Apagão Aéreo afirmou que a causa principal do acidente
entre o
avião da Gol e o jato Legacy, em setembro do ano passado, foi o
fator humano.
Na avaliação dele, depois de
ouvir depoimento dos controladores de
vôo que estavam em
serviço no momento do acidente, em Brasília, a
falha
principal foi do controlador de vôo da torre de Brasília
Jomarcelo Fernandes dos Santos, que é sargento da
Aeronáutica: “O Jomarcelo teve culpa maior que os demais, porque
tinha como rebaixar o Legacy de 37 mil para 36 mil pés.”
Segundo o senador, o inquérito da
Polícia Federal sobre o caso, ao qual a CPI teve acesso, mostra
gravação em que o controlador recebe dos pilotos do
Legacy a informação de que, perto de Brasília, o
avião estava ainda
a 37 mil pés, e não a 36 mil,
como deveria, para evitar a colisão com o avião da
Gol.
O advogado dos controladores de vôo,
Normando Cavalcanti, reclamou aos jornalistas ao final da sessão
da CPI da acusação prematura do senador. “Não
concordo com a opinião do relator de culpar o controlador
categoricamente. Não há provas de que o Jomarcelo foi o
culpado. Temos provas,
pelo contrário, de que ele adotou todas
as normas da Aeronáutica”, disse.
No depoimento, Jomarcelo Fernandes dos Santos
alegou que houve
falha no sistema. O controlador explicou que, durante
todo o tempo, se baseou no que as telas mostravam, ou seja,
36 mil
pés. "Eu tenho que confiar na informação
que tenho
na tela. Se fosse
checar com os aviões de minuto a miunuto, o
sistema ficaria congestionado", justificou. Ele relatou que
acompanhava, então, outros quatro vôos.
O advogado também se queixou do
tratamento dado aos controladores durante o depoimento. “Ele [o
relator] não deixou eles [os controladores]
terminarem as respostas. Era uma pergunta atrás da outra. Quem
vai julgar realmente é o poder Judiciário. Não vai
ser o Senado nem a Câmara.”
O inquérito da Polícia Federal
que apura o caso foi concluído no dia 8, com o indiciamento
dos dois pilotos norte-americanos do Legacy e a
recomendação de que houvesse mais apuração
por parte da Aeronáutica quanto à eventual
responsabilidade dos controladores.
Segundo o relator da CPI o
segundo erro de Jomarcelo Fernandes dos Santos foi não alertar
os colegas que o sucederam no serviço que o sistema mostrava nas
telas o avião a 36 mil pés, diferentemente do que
informavam os pilotos.
21. Se os pilotos conseguiam informar é
porque entre eles e o CINDACTA 1 havia comunicação. Essa
comunicação era do jato Legacy estar nos 37 mil
pés?
22. Nesse momento o console mostrava o jato a 36 ou 37 mil pés?
23. Se a tela mostrava 36 mil pés, por
que o CTR não ajustou, imediatamente, o nível de
vôo do Jato Legacy?
Como, minutos depois, o transponder do Legacy se desligou, os
demais controladores não
perceberam, naquele momento, nenhum
problema.
Se foi
às 16h26 que o controlador substituto fez a primeira de sete
tentativas de contato com o Legacy, como foi identificado o problema?
Para o relator da CPI, a falha dos outros
controladores foi não ter avisado à torre de Manaus que o
Legacy voava com o transponder desligado.
“ Não tenho
dúvida de que Jomarcelo teve a falha mais grave, porque
não determinou esse rebaixamento e quando transferiu o
serviço, não comunicou aos demais controladores
que o
avião estava a 37 [mil pés].”
No depoimento do controlador, o relator
questionou o tempo de experiência do controlador, que respondeu
realizar o serviço há um ano na época do acidente.
Na opinião do relator, a experiência, nesse
caso, é
determinante.
Prestaram depoimento Jomarcelo Fernandes dos
Santos e dois outros controladores que estavam trabalhando em
Brasília no dia do acidente: os sargentos Lucivando de
Tibúrcio de Alencar e Leandro José dos Santos Barros.
Além deles, depôs o sargento que estava na torre de
Manaus, Francisco Roberto Agostinho Freire. Para o relator, Manaus
não teve culpa no acidente.
O Controlador Lucivaldo Alencar disse à CPI que a
comunicação
no tráfego aéreo só é feita com
informações precisas, e não na falta delas:
"Não posso dizer 'acho que o transponder
está com
problema'. Avião funciona com informação
precisa.
Por isso tentei
contato com o piloto e passei a Manaus as
informações de nível de vôo,
horário,
rota e ponto de coordenação." Ele acrescentou que naquela
região é normal as aeronaves perderem contato e "sumirem"
no radar, o
que teria feito com que o fato não fosse encarado
como anormalidade.
A CPI ainda ouviu outros quatro militares que
trabalhavam no controle de vôo na data do acidente: o
coronel-aviador Eduardo dos Santos Raulino, o coordenador de
supervisores, tenente Antonio Robson Cordeiro de Carvalho, e os
sargentos Antonio Francisco Costa de Castro e Alexandre Xavier Barroca.