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IATA aponta falhas na segurança do transporte aéreo no país
A Associação Internacional de Companhias Aéreas (IATA) aponta a persistência de "deficiências e lacunas importantes" na segurança operacional do transporte aéreo no Brasil, às vésperas de maior fluxo de passageiros, com as festas de fim de ano.

O presidente da entidade Giovanni Bisignani acredita que "o controle aéreo deve ser completamente remanejado" no país, insistindo que "isso é prioridade número um, pois não se brinca com a vida humana".

A entidade colocou o Brasil em sua lista de prioridades, junto com vários países da África e a Indonésia, para exigir das autoridades locais a melhoria da segurança aérea. Para isso a IATA se baseia nos índices registrados pelos pilotos e controladores e reportados à entidade. Nesses países, como no Brasil, os índices apontam que as ocorrências de acidentes aéreos estão acima da média mundial.

A Iata transmitiu ao Ministério da Defesa o relatório de uma missão técnica que enviou recentemente ao Brasil.
Essa equipe trabalhou no sentido de fornecer recomendações detalhadas para superar a crise do setor aéreo.


Trata-se de um relatório técnico onde os especialistas analisam o sistema de controle aéreo e quatro aeroportos que foram inspecionados pela equipe.
Em face da concentração de vôos, eles dedicaram suas recomendações ao que encontraram em Guarulhos, Viracopos, Galeão e  Brasília.

Para o corpo de técnicos da IATA esses aeroportos somente preenchem as exigências mínimas para vôos domésticos e internacionais, porém não estão adequados à situação de expansão que o tráfego aéreo no país desde 2002.
Segundo a análise, é isso que agora se reflete nas deficiências e lacunas, gerando um impacto negativo em termos de confiabilidade e eficiência.


De acordo com o relatório, os inspetores da Iata constataram que as instalações do controle aéreo até parecem operar de maneira profissional e os equipamentos em boas condições, daí terem recebido a designação de que preenchem às exigências mínimas".
No entanto, devido ao número de incidentes reportados pelas empresas aéreas, os analistas da IATA confirmam no relatório terem percebido que se trata de um controle instável, ineficiente e que compromete a segurança dos vôos.

A questão da fraseologia em Inglês, exigência que terá que ser cumprida por todos em 2008, é uma das preocupações dos inspetores da IATA.
No relatório eles apontam problemas na comunicação entre pilotos e controladores de vôo, já que eles não se entendem em inglês.
Desse modo, a entidade acredita que o Brasil não será capaz de cumprir, em março próximo, a exigência da OACI sobre o nível de proficiência em inglês dos controladores e pilotos.
Para exemplificar, o relatório cita o alto número de "stand-by" (espera) ou de "não respostas" dos controladores, quando os pilotos estrangeiros consultam o controle de tráfego aéreo brasileiro.

A IATA recomendou, pelo relatório encaminhado ao Ministério da Defesa que a DECEA e a INFRAERO  acelerem o treinamento dos controladores na língua inglesa, pois é crescente entre todos a preocupação com a segurança aérea no país.

Outro problema apontado no relatório é a utilização de "clearance limit" (limites de autorização).
Esses limites definem os pontos até onde a aeronave está autorizada a prosseguir na rota.

Para a IATA o Brasil utiliza o mecanismo em não conformidade com as regras da OACI.
Essa não conformidade, segundo a IATA, pode causar confusão e desentendimento entre controladores e pilotos.
Isso afeta sobretudo os vôos que têm como destino a América do Norte e os países vizinhos da América do Sul.

A razão é que os pilotos seriam obrigados, nesses casos, a refazer seus planos de vôos rapidamente.


O relatório da IATA também menciona alguns problemas identificados nos instrumentos eletrônicos de auxílio de navegação.
É citado que alguns estão fora de serviço há anos.
Questiona a razão de até agora não terem sido certificados os sistemas de aproximação de precisão por satélite no Brasil, já que aumentam a segurança e a eficiência para a tripulação e para os controladores.

Através do seu relatório a IATA aconselha o governo brasileiro a desenvolver rotas mais eficientes e curtas.
Cita inclusive as razões ecológicas e a redução de custos, exemplificando com algumas rotas que retardam a aterrisagem.

Repetindo as reclarações dos controladores, adverte que os órgãos próprios do governo devem reagir às interferências de comunicação causados pelas rádios piratas e pelos sistemas de telefonia. São eles que muitas vezes atrapalham os contatos entre aeronaves e a torre de controle, principalmente nas proximidades dos aeroportos de Guarulhos e do Recife.

O fluxo de gestão do tráfego aéreo também recebeu críticas dos inspetores da IATA.
Aponta falta de informação sobre atrasos de vôos no país. Controladores não atualizam o momento da partida para os pilotos. Mas seus inspetores constataram que há muitos balcões para atendimento na migração, controle de passageiros etc, mas freqüentemente falta gente atendendo, causando enormes filas.

Segundo o documento, a falta de capacidade nos aeroportos será um problema crescente, com o aumento do número de passageiros. O relatório sugere uma série de medidas técnicas para os aeroportos, como reforma ou ampliação de pistas de pouso. O aeroporto de Guarulhos é o que se sai melhor na avaliação dos inspetores.

"Tudo o que a Iata fala é que estamos no limite", interpreta Ronaldo Jenkis, diretor-técnico do Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias (Snea). "O governo gastou dinheiro em terminais suntuosos e esqueceu da parte operacional."

Falta "piloto de qualidade" no Brasil, avalia entidade

A falta de pilotos experientes é outro problema para a segurança aérea no Brasil. A Associação Internacional de Companhias Aéreas (Iata) constata que empresas aéreas em economias emergentes começam a colocar anúncios para aceitar pilotos com nível mais baixo de experiência, com até 50% de tempo de vôo a menos, para designá-los capitães nas aeronaves.

É que há cada vez mais passageiros e mais aeronaves, mas falta o piloto. Giovanni Bisignani, presidente da Iata, dá a dimensão do problema: só no ano que vem serão entregues 1.200 novos aparelhos. Até 2020, há 16 mil aeronaves encomendadas, e serão necessários treinar 17 mil novos pilotos por ano para fazê-los voar.

Isso significa 3 mil pilotos a mais do que a atual capacidade de treinamento no mundo por ano, segundo Juergen Kaacker, diretor de segurança e operações da Iata. "As companhias aéreas estão brigando por recursos limitados com grande impacto por causa da evolução dos mercados emergentes."

No Brasil, a situação é um pouco diferente. "Piloto há, o que falta é piloto de qualidade", afirma Ronaldo Jenkis, diretor-técnico do Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias (Snea). Ele diz que muitos dos bons pilotos foram atraídos por companhias estrangeiras, com salários acima de US$ 15 mil por mês, comparados aos R$ 15 mil reais que receberiam no país. "Alguns voltam, com saudade do país, mas a falta está se tornando um problema."

Insistindo que a segurança é um "desafio crescente", a Iata quer assegurar um padrão de treinamento dos pilotos. Uma das metas da entidade é reduzir o número de acidentes. "O problema de acidentes está concentrado em três áreas: Brasil, Ásia-Pacífico e África. Somos uma indústria global e precisamos voar com segurança por todo lugar", diz Mike O"Brien, diretor da Iata.

A entidade projeta 620 milhões de novos passageiros até 2011, juntando-se aos 2 bilhões atuais. O número na América Latina seria de 54 milhões a mais. "Segurança aérea deve ser mais inteligente, mais rápida e mais adaptável" e isso começa pelo piloto. (AM)
 
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