|
 |
 |
 |
SR. RONALDO SERÔA
DA MOTTA – Bom
dia. Agradeço o convite. Parabenizo a iniciativa.
Primeiro,
gostaria de fazer alguns esclarecimentos. Um deles é que o
título da minha
apresentação foi uma sugestão dos organizadores.
Eu não seria tão criativo
assim, mas aceitei o tema, tentei trabalhar em cima dele, para
aproveitar a
oportunidade para dirimir alguma confusão sobre conceitos ou
alguma ignorância
sobre legislação, que as pessoas, às vezes,
colocam quando se referem à questão
liberdade tarifária e céus abertos.
Segundo,
outro esclarecimento que é muito importante.
Eu não sei quantos de vocês, eu
estou vendo muita gente jovem na platéia, aliás, 90% das
pessoas, imagino que
sejam alunos, jovens, iniciantes nessa área, imagino que sejam
do setor, talvez
não tenham a cultura ainda de aprendizado sobre agência
reguladora.
Antes de
tudo, eu como diretor de uma agência reguladora, tenho um
mandato, sujeito até
a sanções caso eu não o exerça
adequadamente, e acho que no caso da ANAC isso
ficou bem claro, e que sou obrigado a seguir o marco legal brasileiro.
Eu não
posso questionar o marco legal brasileiro.
Se eu quiser questionar o marco
legal brasileiro, eu saio da ANAC e vou me juntar ao Respício na
universidade, e
fazer isso.
|
|
Enquanto diretor da ANAC, em respeito
à legislação brasileira e até
ao contribuinte brasileiro, que financia a ANAC, eu não posso
questionar o
marco legal brasileiro, de forma acintosa. Eu posso, certamente,
discutir quais
são os problemas, entraves, desse marco legal. Mas não
posso desrespeitar o
Parlamento brasileiro, muito menos as diretrizes da Presidência
da República.
Então, eu não vou aqui, de forma alguma, usar da minha
posição da ANAC para
participar nesse evento com convicções pessoais. Eu
não posso fazer isso. Eu
gostaria que todos entendessem, porque isso é questão de
democracia, em que
respeito à lei acima de tudo. (Aplausos)
Da
mesma forma, terei que defender o marco legal brasileiro e defender o
Presidente da República.
Terceiro,
gostaria de colocar que, para um debate de política de
aviação civil, seria
interessante estar aqui o Brigadeiro Godinho, o secretário, que
parece que
estava previsto...
SR. COORDENADOR
JOÃO FLÁVIO PEDROSA –Ele foi
convidado mas a agenda não permitiu que ele aqui estivesse, mas
há
representante da Secretaria aqui presente.
|
|
SR. RONALDO SERÔA
DA MOTTA – Eu
também não vou me arvorar no meu mandato, que é um
mandato político, na
Secretaria de Aviação Civil. Então, alguns temas, algumas
questões, que aqui
foram colocadas, eu não posso falar em nome do governo.
Eu, como regulador,
cumpro o que o Parlamento, a Secretaria de Aviação Civil
determinam.
Eu não vou
aqui discutir o que eles estão fazendo, pretendendo fazer,
porque não tenho
essa procuração.
Imaginando que o Secretário
Godinho estivesse aqui, imaginei
que ele pudesse responder alguns anseios de vocês. Mas,
eu posso comentar.
Antes de apresentar a minha palestra,
pediria permissão, de
fazer algumas observações sobre as
intervenções anteriores.
Ao
Respício, gostaria de colocar que, embora a gente esteja muito
acostumado com
taxinomias, é bom que a gente entenda o processo
histórico.
A Comunidade
Européia tem cabotagem não porque a Comunidade
Européia decidiu ter cabotagem. A Comunidade Européia se tornou
uma comunidade por necessidade
de
integração da comunidade em todos os seus setores,
não só aviação civil.
A
aviação civil se beneficiou da unicidade territorial e
comercial da unidade
européia. E chegou uma hora em que o Parlamento
europeu falou assim: olha, se
nós somos uma economia só, então os aeroportos
são todos domésticos.
E aí eles
foram obrigados a fazer essa inserção forçada e
famosa cabotagem, dentro da
Comunidade Européia, não porque eles pensaram “vamos
fazer a cabotagem!”; não;
“Já que nós somos uma economia só, fluxo livre de
bens e serviços por que não
aviação civil?”
E como eles fizeram, como o
Respício bem colocou, em todas
outras formas de integração, fizeram de forma gradual.
A cabotagem, nos Estados
Unidos e na Comunidade Européia: se você olhar do ponto de
vista do que... o
idealizador da Comunidade Européia...
Ele idealiza os Estados Unidos. A Comunidade
Européia surgiu para representar uma federação que
nem os Estados Unidos.
Os
Estados Unidos já tem cabotagem entre os estados.
Mas, isso, dentro da
Convenção de Chicago não é cabotagem.
Há cabotagem entre países signatários.
|
Só
que de um lado da Convenção de Chicago cada país
da Europa é signatário, mas
existe uma autoridade, que é a Comunidade Européia, que
superpõe esses países e
que entre eles, eles discutiram: olha, independente do que é
signatário da
Convenção de Chicago, inclusive eles estão
querendo ser reconhecidos na ICAO
como uma entidade representante dos países, estão com
esse movimento, vai levar
anos.
Provavelmente talvez nem consigam, os
Estados Unidos não deixem,
mas eles
dentro dessa percepção, dessa idealização
de unidade comum, surge a cabotagem
como uma coisa natural, como surgiu a migração, como uma
coisa natural - ninguém
tem passaporte, todo mundo é cidadão da Europa e todo
avião é uma aeronave
designada da Europa.
Então não há uma
visão de cabotagem, uma ou
duas, uma
experiência. Não. Há um fato histórico...
É o mesmo da Austrália
com Nova
Zelândia. Eles têm lá uma unicidade comercial. E
aí? Já está tudo aqui livre por
que não a aviação civil?
E outros processos aonde essa unidade
comercial não
existe, esses acordos comerciais ou idéia de comunidade
regional, que abarque
mais de um país, a cabotagem não existe. Então
não existe esse dilema na
experiência internacional e na experiência brasileira
não existe essa questão.
A Constituição proíbe. Se vai discutir cabotagem,
temos que discutir dentro de
uma Constituinte ou com uma emenda constitucional.
Eu não vou discutir cabotagem
aqui porque essa questão não existe. Eu não sei
quem levanta essa questão,
porque é totalmente anticonstitucional.
O próprio Mollo já
colocou. Não
interessa a Convenção de Chicago.
Nossos constituintes já disseram
isso.
Eu nem
cogito, não passa pela minha cabeça, não passa
pela cabeça do Secretário
Godinho, não passa pela cabeça do presidente da
República, senão eles teriam
que dizer: vou propor uma emenda constitucional.
Então não existe essa
questão.
Quem traz essa questão traz por ignorância
jurídica.
Não sei porque levantam
essa questão de cabotagem. Não entendo. Ou alguém
está propondo uma
Constituinte nova; eu não sei.
|
|
Quanto à
parte de empresa
estrangeira, isso sim; a Constituição não é
tão clara. A Emenda 6 coloca que
acaba a diferença entre empresa brasileira e estrangeira.
Interpretações
têm duas.
Pelo menos, eu participei da
elaboração da
exposição de motivos da
Emenda 6, indiretamente, quando estava no IPEA, e, obviamente, que o
espírito
na época era: você abre a possibilidade, principalmente
para financiamento, o
BNDES financiar empresas estrangeiras etc. e tal, que você teria
com a
privatização, era assim: o que tem na
Constituição, que determina o que é
nacional, o que é estrangeiro, essa Emenda 6 permite que se
reveja isso.
Isso é
uma interpretação.
A outra, que como Respício
já colocou, é que uns
acham que
automaticamente a Emenda 6 desaparece com a diferença entre
empresa nacional e
estrangeira. Mais uma vez: a ANAC aguarda uma posição
seja do Congresso
Nacional, seja da Presidência da República, em
relação a isso, para poder se
manifestar.
A ANAC não se manifesta quanto a
questões de
política quando não é
consultada.
Quando o Respício colocou que a
Agência não se
manifestou
favorável, por quê? Porque em reunião com o
ministro, inclusive o SNEA estava
presente, o próprio Mollo estava presente, o ministro solicitou
qual é a
posição da ANAC.
A ANAC levantou os estudos.
Olha, fizemos uns estudos e
determino isso.
Mas nós não podemos
advogar por isso. Não podemos
entrar no
Congresso e brigar por isso. Se eu vou no Congresso por isso, um
senador vai
chegar para mim: quem é você? Você não tem
esse mandato. Você cumpre o que nós
dissemos no passado.
Agora nada nos impede, e isso acontece
freqüentemente, que
os senadores e deputados nos chamarem para ouvir uma opinião de
alguém que tem
experiência, que faz a gestão do setor.
Mas nós não podemos sair
daqui, pegar o
motorista, ir lá para o Congresso, bater na porta e: vamos
passar essa lei e
tudo.
O que é isso? Isso é
subversão do ordenamento
jurídico brasileiro
administrativo. Nós não vamos fazer isso. Isso é
passível de punição. Eu acho
que estaria fazendo um desserviço à nação,
porque existem outras instituições
para fazê-lo.
Discussão
com a sociedade.
|
|
A lei da ANAC obriga que todas as
nossas decisões de
implementação do marco legal, decidido no Parlamento,
numa democracia que é o
Brasil, que tem uma Constituição democrática, essa
implementação seja colocada
em discussão.
Todos as nossas decisões
normativas, interpretação
normativa de
aplicação da regulação, os
princípios estão decididos na lei máxima,
nós
colocamos em consulta pública.
Mas, nós, na ANAC, não
podemos fazer palanque.
Nós, na ANAC, não estamos autorizados pela lei a fazer
comício em praça
pública, nem para debate em televisão. Não somos
pagos para isso; se alguém
quer 49%, se alguém quer acabar com a cabotagem, permitir
cabotagem, isso já
está na lei, eu não posso fazer debate sobre isso.
Eu posso fazer o debate
sobre o seguinte, é o que eu vou apresentar: o CONAC e a lei da
ANAC diz: tem
que haver liberdade tarifária. Aí eu vou discutir essa
transição de liberdade
tarifária. Isso tem um mandato, eu faço o debate. Agora
não posso fazer debate
questionando a liberdade tarifária, senão tenho que sair
da ANAC. Gostaria até
de fazer isso do lado de fora.
Eu
não queria colocar em questões filosóficas, mas eu
acho importante quando
mencionaram Miguel de Cervantes, Dom Quixote. É interessante
porque
independente da beleza do texto, a sensibilidade que o texto nos traz,
há um
momento histórico. Dom Quixote simplesmente se negava a aceitar
o fim do
feudalismo, o fim dos príncipes. Ele sentia que o mundo que ele
vivia, de um
grupo de privilegiados, que poderiam se arvorar de nobreza e de
privilégios,
estava no final. Então ele foi contra essa realidade. Isso
é natural quando
alguns privilégios são retirados e acho que isso
aconteceu quando foi criado o
marco legal da aviação civil recente e é natural
que apareçam Dom Quixote’s.
Quero
dizer, também, que a aviação nacional não
está em crise.
O que nós temos sobre crise,
já foi colocado pelo Mollo.
|
É que nós temos uma
restrição
aeroportuária, cujos
investimentos são feitos por uma estatal, que não tem um
marco regulatório.
O nosso espaço aéreo
é uma gestão da
Força Aérea Nacional, do Comando da Aeronáutica,
que nós não temos ingerência nenhuma.
Nos aeroportos a gente ainda pode dar
uma
regulada em tarifa, em forma de concessão.
Em termos de Comando da
Aeronáutica
não temos nenhuma ingerência. O máximo que a gente
consegue fazer com eles é
reunir, pedir, por favor, algumas informações.
Nesse momento, com a gestão do
Ministro Jobim, esse contato é mais amistoso possível e
colaborativo, mas não
posso garantir que com o próximo ministro vai ser, nem com o
próximo comandante
da Aeronáutica, porque não existe um marco legal que
obrigue essa cooperação.
Então você tem, no Brasil,
por questões
tecnológicas, formação de capital
humano etc. e tal, diagnósticos muito claros que nós
não maximizamos o uso do
espaço aéreo.
Eu tive oportunidade de visitar todos
os órgãos de
gestão de
espaço aéreo nos Estados Unidos, Europa, e pegar
índices de produtividade,
acompanhado dos nossos especialistas e nossas produtividades são
muito menores
do que lá fora. Por quê?
Eu acho que os militares aceitam
passivamente a falta
de recursos.
Dois, carreira de militares tem uma
restrição de
premiação, de
salário. Então você tem um controlador de
vôo, que ganha cinco mil, que está
interagindo com o piloto que ganha doze mil. Tem nível superior,
é difícil você
fazer isso na Força Aérea.
Então, você não vai
pegar um oficial, que
você
treinou quatro ou cinco anos, para ser combatente, e depois colocar o
sujeito
ali na torre ou no controle do radar.
|
Então, você tem problemas
que já foram
diagnosticados. Eu estou reproduzindo o diagnóstico da CPI do
Congresso
Nacional.
Então, não me cabe aqui propor coisas.
O
extremo é você fazer o que
todos os países estão fazendo, inclusive na
América do Sul, com muito sucesso,
que para a maioria das pessoas vai ser um choque, que é
você tornar isso uma
gestão privada. Não houve nenhum caso de gestão
privada do espaço aéreo que deu
errado. Mas no caso do Brasil pode dar, porque o Brasil pode ser um
caso
diferente, não é porque ele seja pior ou ruim, nenhum
complexo de Macunaíma, é
porque nossa especificidade pode ser que não tenham levado ao
legislador
brasileiro acreditar que aqui não é dessa forma.
Não vou questionar porque o
legislador não decidiu isso. Isso tem sentido no Congresso.
Não me cabe aqui
falar sobre isso.
Eu
vou falar da área de tráfego, essa que nós fazemos
a gestão. Só para dar uma
idéia: transporte regional no Brasil, que todo mundo está
no fim, ele cresce
20% ao ano nos últimos três anos. Cresce mais do que o de
tronco. Podem olhar
as empresas regionais como elas estão se expandindo.
Crise.
O nosso crescimento do transporte regular, das empresas principais de
tronco,
está crescendo maior que a média mundial. |
 |
|
O último
número que nós tivemos é o
segundo país que cresce mais.
Em todas as
projeções nós estamos lá na frente. O
nível de atraso nos últimos meses caiu para menos de 10%.
Crise? Eu gostaria de
entender onde está essa crise. Nós estamos até
meio preocupados, está calmo
demais.
|
|
O
Mollo colocou uma coisa muito importante, que tem muito a ver com o que
eu
falei antes. É culpar as empresas brasileiras por tudo que
está acontecendo.
Não. Estou mostrando agora. Por esses números que acabei
de indicar, as
empresas brasileiras estão fazendo muito bem o seu
serviço. Se há restrições
aeroportuárias antes comentadas, não cabe a elas
resolverem isso, não cabe a
mim resolver isso, não tenho esse mandato. Se elas se sentem
prejudicadas com
isso e já que o Mollo colocou em questão de
competência, é exatamente a minha
sugestão, não venha a ANAC para resolver isso, porque
nós não temos o mandato,
vá ao Congresso Nacional.
Lembrar
que as nossas empresas têm uma performance, um desempenho
admirável. Todos os
números que nós levantamos, vou repetir isso aqui, um
trabalho que o SNEA
apresentou também para a ANAC. Veja bem a ANAC não pode
interferir em política,
mas nós fazemos ao contrário; nós chamamos o setor
para conversar em seminários
todo mês. Tem uma lista de convidados, é só
procurar a Superintendência de
Relações Internacionais da ANAC, se você quiser
passar a lista para nós, é
automaticamente é livre, então a gente chama o SNEA,
chama o professor da
universidade etc. e tal, nós simplesmente colocamos a
questão e deixamos os
outros debaterem. O INEA esteve lá, com o Respício
também, quando nós
discutimos competitividade.
Deixar
claro que as empresas brasileiras, tanto os números deles como
os nossos,
mostra o seguinte: em todas as rotas que as nossas empresas que atuam
na
América do Sul, na Europa, nos Estados Unidos, elas são
livres. Quando elas
competem com outras empresas elas são líderes. Agora o
market share, mercado
das empresas brasileiras, em relação às empresas
estrangeiras é menor, exceto
França, talvez se eu medir por freqüência, mas por
passageiro não.
|
Mas, quando
a competição é empresa por empresa, o que eu estou
interessado é se as minhas
empresas são eficientes, elas se mostram eficientes e têm
o menor custo
passageiro/quilômetro. Dado do próprio SNEA, que a gente
não conseguia fazer
esse dado, mas eles conseguiram medir. Então, as nossas empresas
são muito
eficientes e isso mostra o que a literatura econômica mostra
incontestavelmente: não existe economia de escala no sentido
econômico. Pode
ter no sentido financeiro, que aí vem a questão na
aviação civil. Não tem
economia de escala. Empresas pequenas, ao contrário, tem ?? de
economia de
escala. Não é à toa que algumas empresas conseguem
subir muito rápido.
Isso
nos leva a uma outra questão. Ah, não, mas tem uma
economia de escala. O
pessoal confunde com economia de escala que é capacidade
financeira. Claro que
uma grande empresa tem mais crédito, tem mais capacidade de giro
de capital.
Ela pode, realmente, alavancar mais fácil recurso financeiro.
Aí o pessoal
chama de dumping, que não tem nada a ver. Dumping é uma
coisa de comércio
exterior. O que as pessoas falam de dumping, equivocadamente,
estão falando de
predação. Predação significa que eu vou
entrar no mercado, trabalhar com
prejuízo durante muito tempo, para quebrar a empresa
concorrente, na
pressuposição que depois que a empresa concorrente sair
do mercado eu vou poder
colocar o meu preço lá em cima e recuperar todo o meu
prejuízo. Esse caso de
predação, mais uma vez, já colocado desafios para
qualquer um, porque nós fomos
estudar isso quando estávamos fora da ANAC, mas no Sistema
Brasileira de Defesa
e Concorrência, não há evidências dessa
privação, porque é muito difícil esse
mercado não ser contestado. Ninguém me garante que quando
a concorrente sair e
subir preço não entra outro, porque não é
monopólio natural aviação civil. Não
existem custos que são específicos e que não
são comercializados depois.
|
|
Eu
pediria ao Mollo, porque me sinto um pouco desconfortável,
não vou falar sobre
as questões das empresas brasileiras em termos de
competitividade. Nós tivemos
um seminário lá e nós tivemos reunião com o
ministro e estou surpreso. O Mollo
sabe como o ministro tomou para si, como deveria ser, a ANAC não
pode fazer
isso, várias questões. O ministro já removeu do
CONAC a parte licenciamento de
importação de peças, já encaminhou, junto
à Petrobras, na parte de
distribuição, PIS e Cofins, para gasolina e outras
demandas. Ele está fazendo
uma política industrial para o setor. Eu fico até
surpreso que o SNEA vem
colocar aqui algo que ele teve da palavra do ministro que estava
fazendo. Mas
não me cabe aqui, só me traz surpresa, que não
seja mencionado como o ministro
teve um dia de reunião com o SNEA e ele se comprometeu e
discutimos a fundo. Eu
gostaria que pelo menos ele manifestasse isso, para não parecer
que o governo
brasileiro está sendo omisso nessa questão. Muito pelo
contrário. Muitas
reuniões, inclusive o ministro pediu ao SNEA subsídio,
para ele poder ir a
outros ministérios, a ANAC não pode fazer isso, o
ministro pode. Eu gostaria
que ele colocasse isso, para que não fique parecendo que
há uma omissão do
governo brasileiro. Seria, no mínimo, injusto senão
deselegante.
Eu
dizendo que só tenho dez minutos, mas gostaria de, rapidamente,
passar.
|
|
Esse
é o marco legal. Não fui eu que fiz, não foram os
senhores que fizeram, mas
muitos daqui participaram do debate. Se não ficou
satisfatório para todos, mas
é parte da democracia, sobressaiu esse marco legal, a liberdade
tarifária e a
concorrência no setor estão consagrados, seja pelo marco
legal, a lei da ANAC,
seja pelas revisões do CONAC, isto já está
sacramentado. Eu não posso ferir
este marco legal como representante da ANAC, como diretor da ANAC.
Como
é que a ANAC olha então? Eu vou falar como é que a
ANAC pretende implementar
isso. De que maneira?
Nós
temos que criar uma estrutura da indústria, que encoraja a
concorrência, de maneira
a expandir. Eu vou falar agora o que me parece que é a grande
preocupação, que
são serviços internacionais, embora vocês saibam
que 80% da capacidade
operacional das empresas é doméstica. O fortalecimento da
nossa empresa é no
setor doméstico. Muitas das demandas que foram discutidas com o
ministro e o
ministro se comprometeu a fazer, inclusive e especialmente
precificação do
querosene de aviação civil, isso só tem efeito no
doméstico, porque, no
internacional, você abastece aqui e lá. Não adianta
eu dar subsídio aqui que eu
vou dar subsídio para as empresas estrangeiras. Mas eu posso
usar o subsídio
hoje no querosene da aviação civil, para amortecer o
efeito do preço do
petróleo, nas nossas empresas, para que elas possam passar nessa
transição. Mas
isso não é ANAC, isso tem que ser o governo, porque isso
envolve, inclusive,
uma empresa que, embora seja estatal, tem acionistas. Mas isso pode ser
feito.
|
O
que tem em termo internacional é que nós temos a
única obrigação que é proteger
o usuário. Eu proteger o usuário não é
só o usuário passageiro, também é aquele
que se vale do serviço de carga. Nós temos uma
balança de carga de 200 milhões
de dólares, que, pelo menos, 130 depende de transporte
aéreo. Enquanto as
operadoras, as empresas aéreas giram cinco/dez milhões, a
economia brasileira
transporta, internacionalmente, 130 bilhões. Esses 130
bilhões, que vão-se
beneficiar de uma modicidade tarifária, que vão-se
beneficiar da concorrência e
assim o legislador imaginou e assim ele fez valer.
Então,
eu tenho que gerar um ambiente de negócio mais flexível e
menos incerto. Eu
tenho que criar oportunidade para as operadoras crescerem e competirem
com
sucesso no mercado global mais dinâmico. Eu tenho que apoiar e
facilitar os
objetivos comerciais internacionais do Brasil. Então é a
ANAC interpretando o
marco regulatório. Eu tenho que melhorar
as condições de
competitividade das empresas transportadoras brasileira. Tenho que
garantir
reciprocidade de direitos. Abertura de mercados, por meio da
concessão de direitos
de 3º e 4º liberdades de tráfego.
Eu
tenho que reduzir as restrições
que limitem a capacidade ou o
tipo de aeronave.Eu tenho que atuar na múltipla
designação, que
é consagrada legalmente, eu tenho que atuar na
liberdade tarifária, que é consagrada legalmente, eu
tenho que regimes flexíveis
e abertos para a operação de serviços de
códigos compartilhados, porque isso é
flexibilização e eu tenho que ter que ter serviços
irrestritos para pontos
antes e depois, 5º e 6º liberdade,
de
forma a aumentar a concorrência.
|
|
Só
que eu tenho restrições. Restrições
são essas que vocês estão vendo aqui.
Existem interesses
comerciais das operadoras aéreas brasileiras; dos trabalhadores,
por exemplo.
No trabalho que o SNEA nos apresentou, discutiu conosco, há uma
questão sobre,
é uma grande questão, que vocês estão
familiarizados, o número de tripulantes,
saída de emergência, com número de passageiros e o
Brasil tende a ter um número maior
de tripulantes. Isso põe
em conflito a operadora com o sindicato e você no meio disso, tem
que trabalhar
com essas duas questões. As prioridades aeroportuárias e
de gestão de espaço
aéreo, que são exógenas à ANAC, que
são colocadas: ah Guarulhos não pode;
número de freqüência em tal aeroporto, é tanto
por hora de pouso e decolagem.
Coisa que eu recebo como dado. Não me cabe mudar isso.
|
|
A
maturidade dos
mercados de transporte aéreo e seu potencial para crescimento
futuro. Eu tenho
que olhar. Se nós estamos fazendo um acordo bilateral, como foi
o caso com a
Venezuela e outros países que nós fizemos recentemente, e
há um expectativa dos
dois países de aumento do tráfego comercial,
relação comercial, eu tenho que
deixar freqüências abertas, para que as empresas
aéreas possam se planejar.
Sabe que tem freqüências aéreas disponíveis e
não vão depender de um acordo
bilateral; uma negociação que pode levar um ano, dois
anos, até mais depois um
ano, dois anos, para conseguir um avião, mais um ano ou dois
anos para
conseguir permissão, se há uma tendência, a
economia brasileira, o Ministério
da Fazenda, o Ministério das Relações Exteriores,
Ministério da Indústria e
Comércio colocam que aquele país tem uma prioridade
comercial, eu tenho que
deixar freqüências abertas. Só que quando eu
faço isso eu estou também tendo
problemas com outros setores que não querem
freqüência, porque tem uma reserva
de mercado, porque não quer que uma outra empresa brasileira
compita com ele
naquele mercado e você tem que administrar isso tudo.
Então são objetivos dos
negócios internacionais do Brasil é importante. A ANAC,
pelo marco regulatório,
não legisla para o operador. Ele legisla para a economia
brasileira. Lamento,
foi assim que o processo democrático decidiu. Se quiser mudar
isso, coloca na
lei da ANAC, muda a lei da ANAC. Solicitações dos
governos estrangeiros. Também
tem vários outros acordos internacionais que envolvem
solicitações de
reciprocidade externas ao setor de aviação civil e que
levam a questões de relações
internacionais.
Quais
são as
estratégias então que nós adotamos?
|
A
flexibilização proposta, sob nenhuma
circunstância, incluirá direitos de cabotagem.
Eu
só estou colocando isso aqui
porque não havia necessidade, mas porque sempre se fala em
cabotagem e não
podemos nem pensar em cabotagem; não posso nem pronunciar
cabotagem, porque
cabotagem não está permitido; na política nacional
de aviação civil está muito
clara, até nós pedimos para colocar: pelo amor Deus
coloca ali que não tem
cabotagem de novo.
Mas
é redundante com a
Constituição. Não interessa, para ver
se as pessoas entendem de uma vez por todas que não está
se falando em
cabotagem.
Segundo,
antes
do Respício pensar nisso, nós já estamos pensando
nisso porque nós temos uma
experiência de regulador de outras áreas de longa data.
Isso, teoricamente, e
na prática, tem provado correto: é uma
liberalização gradual. Óbvio, e quase
todas as formas de liberações no Brasil, em todos os
setores, foram
gradualistas. Lembro o comércio exterior quando se reduziram as
tarifas de
forma gradual. As privatizações, os outros setores; tudo
de forma gradual. Até
hoje as telecomunicações está de forma gradual. A
portabilidade numérica vem
agora em setembro; dez anos depois, que é os céus abertos
da telefonia; é a
portabilidade numérica: você pega o seu telefone, qualquer
número do celular,
você leva para qualquer operadora. Isso é céus
abertos em telefonia. Levaram
dez anos. Pela lei eram cinco; empurraram mais cinco com medidas
administrativas.
Quais
são as
nossas ações? Nós levamos um ano para fazer a
liberação da América do Sul.
|
|
Fizemos
consulta pública durante seis meses e depois mais um ano
para que as
tarifas da América do Sul fossem totalmente liberadas.
Há
juristas que nos
procuram e dizem: não, pelo marco regulatório da ANAC
já está liberado.
Essa
banda é ilegal.
A gente fala assim: olha, não quer nem me
ouvir, porque do
ponto de vista regulatório não faz sentido uma
mudança da noite para o dia.
Tem
uns que até nos colocam uma pressão, de
órgãos de governo, que eles vão nos
sancionar.
A gente recebe alguma intimação: tem que ser
etc. e tal.
Aí nossos
procuradores dizem: não, não é bem assim.
|
|
Cabe
à ANAC fazer essa flexibilização
etc. e tal. Então a
consulta pública, para o resto do mundo, já foi aprovada
na reunião de
diretoria, ontem, que está no site, que seria aprovado, a
consulta pública, e
tem o relatório da ANAC, tem uma proposta, que em doze meses
faremos da mesma
forma, um ano, para liberdade tarifária. A nossa lei, há
três anos atrás, dizia
que era imediata. Nós já estamos quatro anos depois e
vamos levar mais um ano
para fazer, cinco. Desde que foi decidida a liberdade tarifária
vamos levar
cinco anos para faze-la. Mais gradual!! Essa é a ótica,
mas não é a política da
ANAC, não é o jeito da ANAC. Esta é a forma que
todo setor regulador no Brasil
tem feito. Nós não estamos inventando. Nós estamos
usando qual é o princípio de
agência reguladora, o princípio de regulação
adotado, tradicional, no Brasil.
Não cabe nenhum louro para essa nossa posição.
Isso é quase que um cacoete de
quem vem da área de regulação. Não é
nenhuma novidade fazer gradual. Fazer de
maneira radical, eu não conheço exemplo no Brasil. Se
alguém me trouxer um
exemplo no Brasil de uma mudança radical, eu gostaria de ouvir,
porque não
aconteceu. Muito pelo contrário. O que nós temos em
relação à experiência
internacional, é que nós somos mais lentos nas
mudanças. Então me surpreende
alguém ter medo de mudanças radicais, simplesmente
desconhece a área de
regulação. Pode conhecer muito bem aviação
civil, mas desconhece Direito
Público Administrativo, desconhece a legislação
brasileira e desconhece a
literatura de regulação econômica.
|
Por
último, nos acordos bilaterais, estamos fazendo aumento
de capacidade gradual para permitir o planejamento, a
criação de quadro rotas,
para ?? antes e depois de 5a. e 6a. liberdade, e, em
especial, para carga. O nosso setor de carga é um setor pequeno
e incipiente.
Estão crescendo ultimamente. Qual era a grande demanda deles? O
que adianta a
freqüência para mim se eu não tenho avião? Eu
quero pegar o meu avião e dar
volta ao mundo. O que a gente conseguiu com os Estados Unidos?
Ártico,
Pacífico. Não foi numa reunião só, foram
várias para conseguir isso. Pela
África do Sul, pontos além. Com os países da
América do Sul, pontos além, que
eu posso bater lá nos Estados Unidos e ir para a Europa. O
único lugar que não
dá para passar sem pagar é Transiberiana, que todo mundo
sabe que tem essa
excrescência da Rússia, de cobrar lá, porque diz
que a rota é da Aeroflot e
todas as empresas têm que pagar, mesmo assim conseguimos
codeshare para o
Brasil. Então as nossas rotas, nosso avião de carga, que
são poucos, podem dar
a volta ao mundo e com isso maximizar para a sua produtividade.
Então, nós
aumentamos a competitividade porque estava concentrada em algumas
empresas de
cargas internacionais, entre elas fazendo um pequeno mercado.
Nós estamos
trazendo de outras empresas internacionais, para competir, para baixar
a
tarifa.
|
 |
Por
último, nós, em termos de América do Sul,
assinamos o
memorando de Santiago, em que hoje os países que assinaram o
memorando de
Santiago, Argentina/Uruguai/Bolívia/Peru e o Brasil, não
existe mais restrição
entre vôo regional.
Só que é um memorando e
nós queremos que esse memorando,
que tem uma fraqueza legal, nós queremos que no Acordo de
Fortaleza venha a
substituir a proposta brasileira, que já foi aprovada no grupo
de trabalho do
Acordo de Fortaleza, que pega esse memorando e diz: na América
do Sul, todos os
vôos dentro da América do Sul, 3a. 4a. 5a e 6a
estão livres as freqüências e as rotas.
Essa é
a integração que a Europa fez,
nós queremos fazer na América do Sul.
Queremos fazer,
não. Temos que fazer que
é uma determinação do CONAC.
Por fim,
agradeço a vocês terem me ouvido, peço desculpas ao
coordenador da mesa, por ter me excedido no tempo, mas quem vem depois
sempre
tem muito mais coisa a dizer porque ouviu e tem que reagir.
Muito
obrigado.
(Aplausos) |
|
SR. MODERADOR (Eraldo
Alves da
Cruz) –
Senhores, são exatamente onze horas, nós temos mais
três
pessoas para falar, são 20 minutos para cada um, depois vamos
iniciar os
debates com a mesa, e vocês terão
direito a cinco perguntas, formuladas, por escrito, e serão
feitas na ordem de
chegada. As primeiras cinco serão lidas e serão
respondidas pelos integrantes
da mesa.
Eu
passo a palavra para o
Comandante Marcelo Duarte, Vice-Presidente da APVAR,
Associação dos Pilotos da
Varig, que vai falar sobre “A Importância Estratégica do
Setor Aéreo como Fator
de Soberania e Integração”.
|
|
|
|
|