Uma Rádio do Interior pode receber programação de Músicas do Mar?
(Vaqueiro) - Pantaneiro já tem água até as virilhas montado num pilungo chucro. Vim do Rio Grande e deixei de olhar a planura do horizonte, arrebatado pelas cores do poente, aqui mais para o lado do fim do mundo. Não deixo mais o Pantanal. Mas se tu me trouxer umas musiquinhas de mar... Claro que elas vão encher meus olhos dágua, mas ninguém vai reparar...
(Malagueta) - As músicas do Mar não tocam no interior? Então a turma dessas rádios ficam sem saber de nada.
Não acredito que um cara ilustre, numa rádio que precisa de tocar na alma do povo, fazer ele esquecer a dor da fome, do sofrimento, não use a nossa música do mar prá isso. Sai um dia com a gente e passa  a linha onde o horizonte enterra o continente na água, E escuta a água cortando na proa, batendo nas bochechas, e girando nas borbulhas do hélice. Escute as madeiras gemendo, os mastros assobiando a cantoria dos ventos, os pássaros piando na sua espera, enquanto você prepara a rêde. Põe isso numa rádio do interior e neguinho chora sim, Vaqueiro. E nem precisa ser nascido na beira do Mar. Porque o lance é que a humanidade traz dois lados em relação ao Mar: ou olha de frente, ou quer ver pelas costas. Geralmente é a mulher que foge do mar, mas até isso tá mudando, ainda que só nas altas esferas...
(Maria Helena) - A mulher do interior que sou, ouvindo Caymi de criança, pensava no mar e dizia: um dia chego lá. Depois, as músicas cessaram. Os ritmos mudaram e as jovens de hoje nem sabem que existiu Caymi. Olha quanto o romance já perdeu por isso. Um dia alguém vai ver que a violência tem a ver com a música violenta e o ritmo descontrolado. Mas as ondas ainda são verdes? Já sou professora aqui em Brasília há quinze anos, mas ainda não conheci o Mar. Águas do Descoberto, do Paranoá, Emendadas, mas não o Mar de Caymi. Traga essas músicas que as rádios daqui vão tocar, eu tenho certeza. Brasilia é a maior cidade mineira depois de Belo Horizonte e todo mundo sabe que mineiro adora o Mar... O pessoal das rádios também.
(Doutor do Mar) - Carísimos. Se as Músicas do Mar podem passar  a tocar no interior, não sei. Só sei que a audiência das emissoras de tevê cresceria uma barbaridade. E se a televisão der força, o rádio corre atrás. Agora, só para completar o que escreveu o Malagueta, por sinal muito inspirado, as criações sobre o Mar falam para todos os gostos. Homem ou mulher, idoso, criança, jovem ou adulto. Se é branco ou negro, índio ou sei lá o que, todos nós trazemos no sangue esse gosto pelos barulhos do mar. Me lembro de um pernembucano amig, do interior, que chegou de uma longa viagem e trazido à noite para conhecer o mar, em plena escuridão, ficou parado, assustado com os sons das ondas batendo na areia. Mas quedê o tal de Mar? Ele pergundou, olhando muito sério para o negrume da noite quase sem estrêlas e sem lua. Preto, preto, só se ouvia os sons. Pois quem quizer conhecer as músicas do mar, no interior, já sabe que vai ouvir, mas vai sonhar também. E um dia, de preferência na alvorada, vem conhecer o mar, aqui com a gente. Mando um abraço pro meu pessoal de Souza, na Paraíba.
. (Querida Mary) - Só queria dizer que falta sim uma programação de músicas de outras tendências aqui nas rádios de interior. Moro em uma cidade nova, capital recente no estado de Tocantins e sinto muita falta do Mar, de Natal, de onde vim. Quantos brasileiros e brasileiras, como eu, se perdem por esse mundão de Brasil, vindos das dificuldades das cidades inchadas do litoral e se fixam aqui pelo interior.  Se algum ibegeano puder fazer as estatísticas vai ver que fora o Rio e São Paulo, que ainda são cidades- ímãs, e Brasília que é a Capital do País, nehuma outra cidade , e eu digo nenhuma, pode se considerar  como atrativo para essas populações que migram do nordeste para o centro-oeste, do norte para o sul, do sul para o norte e por aí vai. Meu pai venho construir barragens  e por aqui me deixou. Se as rádios de interior tivessem esa sensibilidade, as programações poderiam ser mais interessantes, e a gente poderia matar as saudades do mar.
(Cigano) - Se a Querida Mary está em Palmas, no Tocantins, imagina um caminhoneiro que abandonou Vitória, no Espirito Santo, para correr essas estradas. E larguei uma vida de bem bom na beira da praia porque a escola superior nem sempre é a única solução. Fiz terceiro grau e o que adiantou? Hoje, fora as musiquinhas sertanejas e as fitinhas que ainda resistem, meu radio só pega lixo por essas estradas, numa confusão danada de interesses comerciais e religiosos, misturando música erudita com pregação, sons de equipamentos eletrônicos com guitarras estridentes, isso quando não entra um daqueles ritmos que eu até penso que um pneu furou e vai me obrigar a parar o caminhão. Já ouviram a batida que usam numa festa rave? Pois se não parece pneu furado na ladeira, sem condição de parar. Saudades da beirinha da praia, com a turma do violão, na Praia do Canto, finalzinho de tarde, já acendendo as luzes, e a melodia embalando a alma.  Que as rádios são pessoas jovens afinadas com os jovens a gente já sabe, mas só tem jovem bem preparado, por esse Brasil, não é companheiro?!
(Paulo Antonio) - Quero dar o meu depoimento como profisional do radio, numa cidade de interior, como a que moro, bem distante do mar. Aqui em Montes Claros eu cuido da programação de uma rádio, que se não é a maior é, sem dúvida a melhor, com perdão da concorrência. E nunca me chega às mãos alguma coisa parecida com Canções do Mar!!! Como é que se pode programar uma coisa que não existe? Pelo menos por aqui, isso é total novidade, e qacredito que em muitas outras cidades também. Só posso programar o que a galera dos grandes centros já produziu e manda, pois aqui ninguém vai tirar do bolso para produzir alguma coisa mais trabalhada e botar na programação. Portanto, gente, só vai ao ar o que existe. No dia que existir, vai, com certeza. Eu mesmo vou ficar satisfeito se aparecer algum cdzinho com essas tais Canções do Mar.
(Zé da Roça) - Pelo amor de Deus, Paulo Antônio! Não sei se você é convencido ou foi feito assim mesmo... Como é que você nunca ouviu falar em canções do mar e se diz programador de rádio, cara? Até eu que moro numa roça, tão afastada da tua Montes Claros que prá mim vocês estão na praia... Pensa o que é viver aqui em Rio Branco, no Acre, tendo nascido na terra de Passarinho, o ex-Ministro, cidade de outros famosos também. Xapurí: já ouviu falar? Pois eu já ouvi muita canção do mar e fico com pena de alguém que numa rádio nem saiba o que é isso. Já acordou menino?  Aqui o galo canta às 4:30 certinho. Pode ligar seu rádio que pelo menos uma das antigas vem te acordar melhor.  Tá certo - das antigas. Porque aqui há muita influência da fronteira e as interferências de programação são para agradar aqui e lá. Mas o pessoal da praia de Montes Claros tá precisando do Paulo receber logo umas musiquinhas de mar... Tratem logo disso. Aquele abraço prá todos, com um especial pro Ministro Gilberto Gil.
(Pecadora Divina) - Como é difícil contentar a todos. Sou jovem, moro bem perto do mar em Parati, quase na saída do canal.  Minhas manhãs passo preparando um livro sobre as relações entre as moças que vão para a beira do cais e viram prostitutas quando não conseguem sobreviver por outra atividade. Minha mãe contava que sua grande preocupação comigo veio da letra de uma música - não sei o autor, nem o título, mas a breve história, de onde tirei a idéia de fazer o livro. Nun trecho a moça que tinha vindo do interior para o cais retornava e a mãe lhe perguntava, o que ela fazia, para mandar aquele dinheiro todo mês para casa - e ela dizia que era "secretária da beira do cais". Se alguém souber da autoria, por favor, se comunique aqui pelo blog que essa história me interessa. Quem sabe os programadores conhecem?
(Vaqueiro) - Essa história dá samba! Ou melhor. já deu samba. Espero também que o autor apareça para a Pecadora Divina ficar contente. Mas que nome bonito tu  foi encontrar Chinoca!!! Não me leve a mal, mas tu bem podias dar mais detalhes da tua pessoa. Ou não pode?
Aqui pelo Pantanal, beirando as cercas das fazendas, sinto saudades de umas noites que passei em Paratí, numa subida de minha embarcação, na época. E olha guria, que nem te conto como foi virada aquela noite.
Mas diga que as músicas de tua cidade ainda ajudam a passar as horas, enquanto a gente vê as águas entrando com a maré e cobrindo o piso até os calcanhar?
Maré no Rio Grande é muito diferente, são várias por dia, mas não tem o encanto da tua cidade, Pecadora Divina.
Espero que tu encontres o autor das secretárias.
(Maria Helena) - Tenho curiosidade de saber como uma moça que mora bem perto do mar foi encontrar um tema tão difícil para escrever um Livro. Sei que em sua cidade existe um evento de livros que reune autores expressivos durante alguns dias. Mas os temas são levados para sua cidade. Eles não são da cidade. E percebo que a sua idéia, original, é dar uma outra dimensão à cidade, sendo contada pelo olhar feminino das dificuldades de alguém que se prostituiu.
Com certeza esse livro vai dar a outras jovens, ou mesmo meninas, uma compreensão das suas dificuldades, além de alternativas que possam representar a busca de sucesso, como você está fazendo. Parabéns e espero que consiga encontrar o autor da música, bem moderna, pelo que se entrende.





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